Tarrafal: o Tarrafal existiu mesmo, foi uma realidade, ainda existem memórias vivas que o podem comprovar, apesar de haver muita gente a querer branquear a história.

O Tarrafal funcionou, numa primeira fase, de 1936 a 1954, como cárcere para presos políticos de Portugal; e mais tarde, de 1962 a 1974, com o nome de Campo de Trabalho de Chão Bom, como penitenciária de nacionalistas de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde.

A Colónia Penal foi criada em 1936, o Tarrafal ficou conhecido como “campo da morte lenta”, nome plenamente justificado pelas terríveis condições de clima, saúde, alimentação e regime carcerário, marcado pela extrema violência. Segundo os dados oficiais, morreram no Tarrafal 32 prisioneiros.

Após a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, a pressão internacional obrigou Salazar a encerrar o campo em 1954. Viria a ser reaberto por diploma de 1961. A respectiva portaria foi assinada pelo então Ministro do Ultramar, Adriano Moreira, e recebeu a designação de Campo de Trabalho de Chão Bom, tinha capacidade para 500 reclusos.

Aqui ficam pequenas biografias de duas das vítimas do Fascismo que passaram pelo Tarrafal, mas foram centenas os que foram forçados a morar no Tarrafal e cujo crime que cometeram foi pensar (pensar de maneira diferente).

Manuel António Bôto, nasceu em Silves, em 26-04-1907, e faleceu em Alhos Vedros (Moita), em 1984. Era filho de José António Bôto e de Maria Antónia Bôto. Em 1918 foi morar para Alhos Vedros, onde seu pai era o encarregado numa fábrica de cortiça.

Este ferroviário anarco-sindicalista teve um papel preponderante na organização do 18 de Janeiro de 1934, no Sul, nomeadamente no Barreiro e no Algarve.

Manuel Bôto deu entrada na PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) de Lisboa, a 05 de Fevereiro de 1934, sendo despronunciado. Foi incrminado noutro processo e julgado pelo TME (Tribunal Militar Especial) a 12 de Maio de 1934, sendo absolvido.

A 07 de Junho de 1936, emigrou clanestindamente para Espanha, onde participou na guerra civil, alistando-se no V Regimento. Colaborou no Serviço de Informação Militar na República espanhola. Em Madrid foi Secretário do Núcleo Cultural Português e membro da FAI (Federação Anarquista Ibérica), e da CNT (Confederação Geral do Trabajo).

Foi preso e extraditado pelos falangistas no fim da guerra. Regressado a Portugal, foi preso em 01 de Outubro de 1940 no Posto de Beirã, tendo sido enviado para o Tarrafal, de onde regressou a 16 de Novembro de 1945.

Emigrou para o Brasil, por intermédio do ferroviário e xilógrafo algarvio Manuel Cabanas. Radicou-se em São Paulo, onde em 1966 escreveu o livro “Memórias da Guerra Civil de Espanha”. Regressou a Portugal depois do 25 de Abril de 1974.

Fonte: “Presos Políticos Algarvios em Angra do Heroísmo e no Tarrafal”, (por Maria João Raminhos Duarte, Edições Colibri; Câmara Municipal de Portimão, Lisboa, 24 de Abril de 2009, Pág. 80 e 81)

Alfredo Caldeira, nasceu em Lisboa, em 11-07-1908, e faleceu no Tarrafal (Cabo Verde), em 01-12-1938. Começou a trabalhar cedo, como Pintor Decorador. Em 1931, com 23 anos, aderiu ao PCP, que dava os primeiros passos na luta clandestina após a reorganização iniciada dois anos antes, sob a direcção de Bento Gonçalves. É neste período que os comunistas começam a penetrar nos sindicatos e a criar organizações em importantes empresas e sectores. O Avante! vê a luz do dia pela primeira vez em 15 de Fevereiro de 1931 e a influência da juventude comunista começa também a fazer-se sentir nos meios operários e estudantis.

Em 1932, Caldeira é já membro da direcção do Comité Regional de Lisboa. No mesmo ano, ascende ao Comité Central. A responsabilidade que assumia pela ORA – Organização Revolucionária da Armada, que seria uma das maiores e mais poderosas organizações do PCP, leva-o a participar no Secretariado. Em Outubro de 1933, desloca-se ao sul do País para estabelecer contactos com a organização do Partido no Algarve. No dia 27, cai nas garras da polícia, de onde não sairia com vida.

Preso na Penitenciária de Lisboa, é transferido para o Forte de Peniche a 20 de Novembro desse mesmo ano de 1933. Dois dias depois, é deportado para a Fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo, nos Açores. É nesse local que é julgado por um Tribunal Militar Especial e condenado a 690 dias de «prisão correccional que, descontados 295 dias, fica reduzido a 395 dias de prisão correccional e perda de direitos políticos por 5 anos», lê-se na sua ficha prisional. Mas a prisão não lhe retira o fervor revolucionário. Em Dezembro de 1934, tem participação activa na luta dos presos contra as péssimas condições prisionais da Fortaleza. No dia 8 desse mês, é transferido para uma esquadra da PSP para ser libertado. O que, efectivamente, acontece no dia 10. Mas a decisão seria anulada no próprio dia, e Alfredo Caldeira é novamente preso e enviado para Peniche. Era assim a legalidade fascista.

Em Outubro de 1936, integra o grupo de 152 presos que seguem a bordo do paquete Luanda rumo ao Campo de Concentração do Tarrafal, criado em Abril desse ano para «recolher os presos condenados a pena de desterro, pela prática de crimes políticos». À chegada, no dia 29, o director do Campo, Manuel dos Reis, recebe os prisioneiros: «Quem vem para o Tarrafal, vem para morrer.»

Construído à imagem dos campos de concentração nazis que, na época, se espalhavam por toda a Europa, no Campo do Tarrafal (que ganhou o cognome de «Campo da Morte Lenta») a violência sobre os presos era arbitrária e quotidiana. Castigos físicos, trabalhos forçados e isolamento na «frigideira» eram penas frequentes.

Mas o fascismo tinha outros métodos para assassinar os melhores filhos do povo português. O Campo fora construído numa zona insalubre e de péssimas condições atmosféricas. A água inquinada, as doenças e a falta de assistência médica e medicamentosa faziam o resto. Numa afirmação de cruel sinceridade, o médico do Campo, Esmeraldo Pais Prata, afirmava: «Não estou aqui para curar, mas para passar certidões de óbito.» Mas nem as piores condições e as violências conseguiam impedir os comunistas de se organizar. Entre 1937 e 1938, Alfredo Caldeira integra o Secretariado da Organização Comunista Prisional do Tarrafal. Como muitos outros camaradas, contrai a biliosa, que já matara vários presos – e que vitimaria, em 1942, Bento Gonçalves, secretário-geral do Partido. Num diário escrito por um preso (publicado em Dossier Tarrafal, das Edições Avante!), é possível acompanhar a sua doença. A 18 de Novembro, lê-se, «caiu pela segunda vez com uma biliosa o camarada Alfredo Caldeira». A 23, observa-se que «tem piorado dia a dia» e no dia seguinte «está à morte». No dia 1, o diário relata: «Morreu Alfredo Caldeira. Após longos dias de sofrimento finou-se hoje, mantendo até bem pouco antes da sua morte uma extraordinária lucidez de espírito e uma coragem moral invulgar. Mais uma vítima deste regime desumano de prisão. É a décima morte.»

O seu nome faz parte da Toponímia de: Almada (Freguesia da Charneca de Caparica); Loures (Freguesias de Fanhões e Santo Antão do Tojal).

Fonte: “Jornal Avante, nº 1829, Edição de 18 de Dezembro de 2008”.

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