Bento de Jesus Caraça, mais uma vítima do “Estado Novo”

 

Bento de Jesus Caraça, Professor, Matemático, Escritor e Político, faz hoje 115 anos que nasceu. Bento de Jesus Caraça foi, mais uma vítima, das muitas que o Estado Novo fizeram.

Aqui ficam alguns dados biográficos de Bento de Jesus Caraça, de forma a que seja sempre lembrado, e que nunca nos esqueçamos que o fascismo existiu mesmo.

 

bento de Jesus CaraçaBENTO DE JESUS CARAÇA, Matemático e Escritor, nasceu em Vila Viçosa, a 18-04-1901, e faleceu na Rua dos Industriais, em Lisboa, a 25-06-1948. Era filho de João António Caraça, feitor de uma herdade do concelho de Redondo e de Domingas da Conceição Espadinha. Aprendeu a ali a ler com um moço de lavoura.

Bento de Jesus Caraça fez o Ensino Primário em Vila Viçosa, prosseguindo so seus estudos no Liceu de Sá da Bandeira, em Santarém. Partiu para Lisboa com 13 anos de idade para estudar no muito afamado Liceu Pedro Nunes, onde concluiu com distinção, o Ensino Secundário em 1918.

Cruz Quebrada 006Neste mesmo ano matriculou-se no Instituto Superior de Comércio, hoje Instituto Superior de Economia e Gestão, e um ano depois é nomeado 2º Assistente pelo Professor Mira Fernandes. A sua carreira académica tornava-se notória. Em 1924, é Assistente e em 1927 Professor Extraordinário.

Foi um aluno brilhante e, mais tarde, Professor de Matemáticas Superiores, no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras da Universidade técnica de Lisboa. Apesar da sua curta vida, foi uma das personalidades mais influentes na cultura portuguesa das décadas de 30 e 40, influência que, graças a alguns dos seus trabalhos e iniciativas, com destaque, nos primeiros, para a célebre conferência A Cultura Integral do Indivíduo (1933), e, nas segundas, para a «Biblioteca Cosmos» (1941-1948), marcou decisivamente várias gerações, mesmo para além de da sua prematura morte. Fundou o primeiro Centro Português de Matemáticas Aplicadas á Economia.

O seu mérito foi reconhecido internacionalmente, uma vez que foi o Delegado representante da Sociedade Portuguesa de Matemática nos Congressos da Associação Luso-Espanhola para o Progresso das Ciências em 1942, 1944 e 1946.

Em Setembro de 1946, o Ministro da Educação, Fernando Pires de Lima, instaura-lhe um processo disciplinar por ser co-signatário do manifesto O MUD perante a admissão de Portugal à ONU, em que se reclamam a prévia democratização do regime e o respeito pela Carta como condição da sua admissibilidade nas Nações Unidas.

É demitido e expulso da Universidade a 05 de Outubro de 1946, sendo-lhe proibida a docência no Ensino Público e Privado. Em Outubro e Dezembro desse ano é sucessivamente preso pela Pide. O seu Centro de Estudos Matemáticos é encerrado pelo Ministério da Educação Nacional.

Debatendo-se com dificuldades económicas, passa a dar lições em casa, que continua como centro activo de vida poítica e cultural. Em 1948, a sua doença cardíaca agrava-se. O MUD é ilegalizado nesse ano pelo Governo e os membros da sua Comissão Central, entre os quais Bento de Jesus Caraça, são presos pela PIDE.

Participa ainda em 1948, na conversão das estruturas do ilegalizado MUD em base de apoio à candidatura do General Norton de Matos às eleições presidenciais de Fevereiro do ano seguinte.

Os seus ensaios, publicados nas revistas “Gazeta de Matemática”, “Seara Nova”, e “Vértice”, e nos jornais “O Globo”, “O Diabo”, e “A Liberdade”, acompanharam a sua notável acção nos campos da cultura e pedagogia.

Publicou várias obras, entre as quais se destacam “Interpolação e Integração Numérica” (1930-1932), “A Cultura Integral do Indivíduo” (1933), “Lições de Álgebra e Análise” (1935-1940), “Cálculo Vectorial” (1937), “Galileo Galilei” (1939), “Conceitos Fundamentais da Matemática” (1942), e “Funções Octogonais” (1948). Em 1946, Salazar impediu-o de leccionar em todas as Universidades portuguesas, por ter subscrito um documento do Movimento de Unidade Democrática (MUD), onde se sublinhava que a implantação da democracia no país era condição indispensável para Portugal ser admitido nas Nações Unidas. Sobrevivendo graças às explicações de Matemática e à solidariedade dos amigos, Bento de Jesus Caraça morreria devido a insuficiência cardíaca.

A 03 de Setembro de 1979 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e a 30 de Junho de 1980, foi condecorado, a título póstumo, com o grau de Grande Oficial da Ordem da Liberdade.

O seu nome faz parte da Toponímia de: Albufeira; Alcácer do Sal (Freguesias de Alcácer do Sal e Torrão); Alcochete (Freguesia de Samouco); Almada (Cidade de Almada e Freguesias da Caparica e Sobreda); Alvito (Freguesia de Vila Nova da Baronia); Amadora; Arraiolos (Freguesia do Sabugueiro); Barreiro (Cidade do Barreiro e Freguesia de Santo António da Charneca); Beja; Benavente (Freguesia de Samora Correia); Borba; Campo Maior; Cascais (Freguesias de Cascais, Parede e São Domingos de Rna); Castro Verde; Coimbra; Coruche (Freguesia do Couço); Cuba (Vila de Cuba e Freguesia de Vila Alva); Estremoz (Vila de Estremoz e Freguesia de Mamporcão); Évora (Cidade de Évora e Freguesias de Nossa Senhora de Machede e São Vicente do Pigeiro); Faro; Ferreira do Alentejo; Gondomar; Grândola; Lisboa (Freguesia do Lumiar); Loures (Freguesias de Apelação, Bobadela, Camarate, Moscavide, Sacavém, Santo Antão do Tojal e São Julião do Tojal); Marinha Grande; Mértola; Moita (Freguesias de Baixa da Banheira e Moita); Montemor-o-Novo; Montijo (Freguesias de Montijo e Samouco); Odivelas (Freguesias de Famões, Pontinha e Ramada); Oeiras (Freguesia de Barcarena e Cruz Quebrada/Dafundo); Ovar; Palmela (Freguesias de Palmela, Pinhal Novo e Quinta do Anjo); Portel; Portimão; Porto; Redondo, Reguengos de Monsaraz; Santarém; Seixal (Freguesias de Aldeia de Paio Pires, Amora, Corroios e Seixal); Sesimbra (Freguesia de Quinta do Conde); Setúbal; Sintra (Cidade de Agualava-Cacém e Freguesias de Algueirão Mem Martins e Queluz); Valongo (Freguesia de Ermesinde); Vendas Novas (Vendas Novas e Freguesia da Landeira); Viana do Alentejo (Freguesia de Aguiar); Vila Franca de Xira (Freguesias de Alverca do Ribatejo, Vialonga e Vila Franca de Xira); Vila Viçosa (Vila Viçosa e Freguesia de Bencatel).

Fonte: “Dicionário Cronológico de Autores Portugueses”, (Volume IV, Organizado pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, Publicações Europa América, 1997, Pág. 84, 85 e 86)

Fonte: “A Perseguição aos Professores, Estado Novo e a Universidade”, (Fernando Rosas e Cristina Sizifredo, Edições Tinta da China, 1ª Edição, Setembro de 2013,Pág. 88, 89 e 90).

Fonte: “Quem É Quem, Portugueses Célebres”, (Círculo de Leitores, Coordenação de Leonel de Oliveira, Edição de 2008, Pág. 122).

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