“Pessoas vinculadas aos CTT”

CTTOs CTT, com este ou com outros nomes que foram tendo ao longo dos anos, tiveram, para o seu prestígio e engrandecimento, a contribuição de muitas pessoas. São essas pessoas que, dentro da medida do possível, pretendo dar a conhecer.

 

 

ANTÓNIO SERRÃO DINIS, 13º Correio-Mor do Reino, em Viseu, exerceu o cargo de 1807 a 1832. Nasceu em Belém (Lisboa), em 1765, e faleceu em Viseu, a 30-12-1832. Era filho de Luís Serrão Dinis e Faria, e de D. Maria Joaquina de Oliveira, e cunhado do Correio-Assistente João Estanislau do Vale Lobo da Torre.

Em 1788 servira como Ajudante de seu pai no Ofício de Escrivão dos Órfãos do Concelho de Ferreira de Aves; e em 1816, 1824 e 1826, como Escrivão da Cãmara de Viseu.

Encontrando-se bastante doente o Padre Júlio do Vale Lobo, foi Serrão Dinis nomeado, por Alvará de 23 de Fevereiro de 1807, para o substituir nos impedimentos e falta. O Padre veio a falecer dias depois, e ele prestou fiança em 02 de Abril seguinte e continuou a gerir o Correio, interinamente, até falecer, ou seja por um largo período de vinte e cinco anos, em que lhe não faltaram preocupações e arrelias, como adiante veremos, especialmente depois de 1820, em que se iniciou o período das nossas lutas civis.

O quadro do Correio de Viseu era constituído em 1808 pelo pessoal seguinte:

Assistente: António Serrão Dinis;

Fiel: Padre António Pacheco Meireles, irmão do Assistente;

Escriturário: Genézio José de Araújo, então moço de 16 anos, natural de Insna, o qual muito daria que falar, alguns anos depois;

Estafeta: José dos Santos, de 50 anos que já servia o Correio desde 1781.

Por essa altura o Correio partia de Lisboa para todas as Províncias do Reino às Segundas, Quartas e Sábados, pelas 6 horas da tarde, em dois grupos distintos; o das malas que se destinavam às Províncias ao Norte do Tejo e o das malas que se destinavam para o Sul do mesmo rio.

O primeiro grupo seguia a linha de Lisboa ao Porto, com diferentes ramais. O que se destinava a Viseu partia de Coimbra, donde um Estafeta transportava as malas com um animal. Fazia três carreiras por semana, pelo preço de 5.600 réis cada carreira de ida e volta, num percurso de 26 léguas, com o que a Sub-Inspecção Geral despendia anualmente a importância de 873.600 réis.

De Viseu para Almeida, passando por Trancoso, havia um outro Estafeta, que conduzia as malas três vezes por semana e recebia por cada viagem de ida e volta, num total de 32 léguas, 7.200 réis, ou seja uma despesa anula de 1.123.200 réis.

As três malas de Lisboa para Viseu tinham o horário seguinte:

Primeira mala: De Lisboa partia na Segunda-Feira, de tarde, e chegava a Viseu na Quinta-Feira, de manhã; de Viseu, partia na Sexta-Feira à tarde e chegava a Lisboa na Segunda-Feira de manhã.

Segunda Mala: De Lisboa partia na Quarta-Feira à tarde e chegava a Viseu no Sábado de manhã; de Viseu partia no Domingo à tarde e chegava a Lisboa na Quarta-Feira de manhã.

Terceira mala: De Lisboa partia no Sábado à tarde e chegava a Viseu na Terça-Feira de manhã; de Viseu partia na Terça-Feira à tarde e chegava a Lisboa na Sexta-Feira de manhã.

Em 1818,o Correio de Viseu tinha delegações nas seguintes localidades: Castendo; Ferreira; Fornos de Algodres; Mangualde, Oliveira do Conde, São Pedro do Sul; Tondela e Vouzela.

Como acima referimos, este Correio Assistente na Capital da Beira Alta não teve vida oficial muito calma. Vamos enumerar tr~es ou quatro casos, entre muitos em que teve de intervir:

Os povos de Santa Comba Dão protestaram, em Setembro de 1822, contra o facto de o Estafeta de Coimbra para Viseu, e vice-versa, não atravessar aquela Vila, e cortar por um caminho que passava por Portela. Queixavam-se de que a amla do correio para a sua terra era deixada numa venda isolada do caminho, no sítio da Culmiosa, sem resguardo algum.

Justificou-se Serrão Dinis com o facto de assim se encurtar caminho e acelerar a marcha do Estafeta. Depois de muitas informações e discussões chegou-se à conclusão de que a demora que resultaria do desvio por Santa Comba Dão não excederia um quarto de hora e deu-se satisfação aos reclamantes, pois, dizia-se no despacho ministerial, assim se acautelavam as correspondências e se poupava aos moradores da Vila o trabalho de se deslocarem a Viseu em caso de transferência de valores, por não confiarem na segurança da mala da sua terra quando abandonada numa taberna.

No dia imediato também o Marechal-de-Campo encarregado do Governo das Armas da Beira Alta quis meter a sua colherada nos Serviços Postais, pretendendo que o correio para Lisboa partisse duads horas mais tarde di que estava estabelecido, para poder responder nos mesmos dias às correspondências recebidas, dizia ele, das 9 às 10. O Sub-Inspector Geral, apoiando-se no parecer do Correio Assistente, não aceitou a exigência, e apenas lhe facultou que lhe pudesse ser entregue a sua correspondência logo que a mala chegasse, pouco depois das 7 da manhã.

Outro quebra cabeças era a aaudácia sempre crescente dos bandoleiros, que punham em constante risco a vida dos Estafetas e a segurança das correspondências e valores que transportavam. Assim. O Estafeta do Correio de Viseu, José Francisco, foi assaltado por uma quadrilha de ladrões nuns pinhais junto à Vila de Tondela, na manhã de 06 de Setembro de 1823. Dias antes o mesmo sucedera a outro Estafeta vindo de Almeida. Em presença destes factos, determinou-se a suspensão do envio de dinheiro e outros valores pelo Correio daquela região.

Esta determinação provocou, porém, uma enérgica reclamação do Brigadeiro Duarte José Fava, alegando que a falta da remessa de fundos para Viseu ocasionava graves transtornos, dificultando a aquisição dos géneros indispensáveis às forças armadas e o pagamento a operários que trabalhavam sob as suas ordens.

O Ministro ordenou o restabelecimento do transporte de fundos e o reforço do policiamento da região infestada pelos salteadores. O resultado do policiamento não parece que fosse eficiente.

Em 09 de Agosto de 1824 o Correio de Viseu para Coimbra foi assaltado por alturas da Fonte do Salgueiro, e roubadas ao Estafeta as bolsas com a quantia de 1.944$330 réis, pela qual desgraçadamente ficam responsáveis os pobres Correios Assistentes (diz o Sub-Inspector) e pede providências.

Doi indivíduos que se tornaram suspeitos em Coimbra por diversas circunstâncias, e um deles chegou a ser apanhado em Lisboa, sendo-lhe encontrada a quantia de 1.200$000 réis, mas dizia o Juízo do Crime do Bairro do Limoeiro, que não havia possibilidade de afirmar que esse dinheiro fora roubado.

A 18 de Setembro de 1829 o Estafeta que conduzia a mala de Lamego para Viseu foi assaltado a uma légua de Castro Daire e atado ao animal que montava. Os salteadores que eram quatro, rasgaram a mala com uma faca e roubaram tudo que continha.

O pior veio porém, com o desenvolvimento das lutas civis, em que ninguém estava isento de ser maltratado por miguelistas ou liberais; e desta feita o mal rondou a porta do Correio.

Genézio José de Araújo,o Amanuense acima referido, envolveu-se na luta contra D. Miguel, e foi sentenciado por uma terrível alçada que funcionou no Porto, e o acusava nos termos seguintes:

«Tomou parte no movimento revolucionário ocorrido em Viseu, contra o governo do Senhor Dom Miguel, em Maio de 1828. Reuniu-se às forças revolucionárias em Coimbra, acompanhou-as ao Porto e seguiu com elas, depois do insucesso, para a Galiza. Depois por Vila de Monforte de Lemos entrou de novo em Portugal, passou a Bragança e foi preso em Torre de D. Chama».

Julgado pela alçada acima referida, em 1830, foi condenado a 6 anos de degredo na Ilha de São Tomé. De passagem para o degredo, entrou na Torre de São Julião da Barra, onde sofreu as inclemências e maus tratos aplicados a todos os presos políticos que ali estiveram, e só foi posto em liberdade com a entrada das tropas liberais, em 24 de Julho de 1833.

É muito provável que a circunstância de consentir um funcionário anti-miguelista de portas a dentro da Repartição, tenha tornado Serrão Dinis suspeito ao Governo de então. E a vitória dos liberais, anos depois, acusá-lo-ia talvez de desafecto ao liberalismo, por não ter acompanhado o seu subordinado; mas a morte livrou-o desse percalço, levando-o deste mundo ainda na vigência do reinado do Senhor D. Miguel.

Bibliografia: “Assistentes do Correio-Mor do Reino em Viseu”, (por Godofredo Ferreira, Edição dos CTT, Lisboa 1960)

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