Tomás da Fonseca, um Escritor a (re)descobrir, faleceu faz hoje 49 anos

 

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José TOMÁS DA FONSECA, Escritor, Jornalista e Político, nasceu em Laceiras, Freguesia de Pala (Mortágua), a 10-03-1877, e faleceu em Lisboa, a 12-02-1968. Filho de Adelino José Tomás e de Rosa Maria Tomás. Oriundo de uma família de pequenos proprietários rurais, mais rica em prole do que em fazenda (era o segundo entre sete irmãos), para frequentar a escola primária móvel, implantada havia pouco tempo na sua região, era obrigado todos os dias a fazer uma caminhada de ida e volta de 10 quilómetros. Aos 17 anos de idade, peito largo e musculatura rija adquiridos ao leme do arado e do alvião, coube a Tomás da Fonseca ser o escolhido pelos progenitores, de entre os quatro filhos varões, para seguir a vida eclesiástica, assim se restabelecendo a tradição da linhagem de contar com um Padre na família. Deste modo, entrou para o Seminário de Coimbra o curso de Teologia, que acabou por abandonar em 1903, após um prolongado e doloroso debate no interior de uma consciência seduzida pela grandeza da doutrina mas revoltada com a perversidade e a mesquinhez da sua pátria quotidiana. Seguindo, resolutamente, a exortação do Geógrafo e racionalista Elisée Reclus, a quem se dirigia para lhe expor o dilema religioso com que se debatia e a pedir-lhe conselho, Tomás da Fonseca renunciou por fim aos propósitos que então o animavam («ordenar-me e depois insurgir-me contra tudo quanto a Igreja tem de absurdo e revoltante, dando assim realidade ao personagem de Zola, o Abade Pierre Frement», conforme logo após confessou no seu livro Evangelho Dum Seminarista), assumindo como norma imperativa da sua vida o conselho recebido daquele sábio e libertário francês. Participante activo, pela pena e pela palavra, nos jornais, nos comícios e em conferências, na ininterrupta acção política que iria conduzir alguns anos depois ao derrube da Monarquia portuguesa; Deputado e mais tarde Senador pelo Distrito de Viseu, desde as Constituintes até 1917; chefe de gabinete do Ministro do Fomento do Governo Provisório, Dr. António Luís Gomes; preso político na Penitenciária de Coimbra durante dois meses, em consequência das posições tomadas por si e por outros republicanos de Santa Comba Dão contra o consulado sidonista; resistente até ao final da vida ao regime do Estado Novo, que, em 1947, o encarcerou na prisão do Aljube, em Lisboa, por ter protestado contra a continuidade do Campo do Tarrafal, nada disto impediu, porém, o seu constante labor de paladino da instrução e da cultura do povo português, durante anos a fio, desde que à instrução e à educação decidiu dedicar a maior parte da sua longa vida. A par dos seus escritos sobre educação e o ensino, das visitas de estudo que empreendeu a Escolas, Museus e Bibliotecas francesas, belgas e inglesas e da polémica travada no jornal O Mundo com João de Deus Ramos (1917) acerca do ensino religioso nas escolas, a par disto, Tomás da Fonseca consagrou-se com idêntico ardor à acção pedagógica directa. Na verdade, grande impulsionador do movimento das Escolas Móveis, percorreu o Distrito de Viseu a pregar a boa nova da alfabetização pelo método de João de Deus (Cartilha Maternal); interveio na reforma do Ensino Primário e Normal empreendida pelos governos republicanos (1912); apresentou ao Parlamento em 1916 um projecto de lei sobre a Instrução Primária (Lei nº 429); incentivou e dinamizou, no âmbito das suas funções de Deputado, a criação das comissões «Amigos da Escola», nomeadamente no seu distrito, cujos concelhos de Mortágua e Tondela percorreu em 1914, deslocando-se a todas as Escolas Móveis para instalar as referidas comissões; elaborou em 1922, a instâncias do Ministro da Instrução Pública, Dr. Augusto Nobre, o livro História da Civilização Relacionada com a História de Portugal; exerceu o Magistério, primeiro como Professor e depois como Director da Escola Normal de Lisboa (dela foi demitido em 1918 pelo sidonismo, por visitar presos políticos  na Penitenciária de Lisboa) e, tempos depois, da Escola Normal de Coimbra, da qual viria a ser afastado compulsivamente em 1934. A sua acção pedagógica não se confinou, no entanto, ao ensino oficial; em 1925 fundou em Coimbra, com outros Mestres (Álvaro Viana de Lemos, Aurélio Quintanilha, Joaquim de Carvalho e Manuel dos Reis) e alguns estudantes e trabalhadores manuais, a Universidade Livre. É vasta e permanece dispersa a sua colaboração em jornais e em revistas. Escreveu, entre outros, nos seguintes periódicos: A Pátria (do Porto), O Mundo, A Vanguarda, Voz Pública, O Norte, República, O Povo, A Batalha, Lanterna (do Brasil), Luz e Vida, Alma Nacional, Arquivo Democrático (de que foi Director), O Diabo e a República Portuguesa, (um periódico por si fundado e de que era proprietário). Colaborou também no Guia de Portugal (3º volume), na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e ainda na obra dirigida por Lopes de Oliveira As Grandes Figuras da História da Humanidade – História Geral da Civilização. Há vários prefácios seus a livros de outros autores. Era pai do Escritor Branquinho da Fonseca. Foi perseguido e preso. Dezassete dos seus livros foram proibidos pela censura fascista, mas nunca desistiu, jamais capitulou. Tomaz da Fonseca um homem que não acreditava em Deus, publicou em 1909 um livro que fez época: “Sermões da Montanha”, hoje quase ignorado pelas gerações actuais.

Principais obras do autor: Dor e Vida, (1900); “Evangelho de um Seminarista”, (1903), “Deserdados” (poemas com prefácio de Guerra Junqueiro), (1909), “Cartilha Nova” (2ª edição 1915), “Memórias do Cárcere” (1919), “Musa Pagã” (poemas), (1921), “História da Civilização com a de Portugal”, (2ª edição 1929), “Questão Romana” (colaboração de Brito Camacho), (1930), e “No rescaldo de Lourdes”, (1932); A Igreja e o Condestável, (1933); O Púlpito e a Lavoura, (1947); Memórias Dum Chefe de Gabinete, O Pinheiro e D. Afonso Henriques e a Fundação da Nacionalidade Portuguesa, (1949); Águas Passadas e Águas Novas, (1950); Filha de Labão, (1951); A Pedir Chuva, (1955); Agiológio Rústico e Na Cova dos Leões (a edição destinada ao Brasil intitulava-se Fátima – Cartas ao Cardeal Cerejeira, 1957); O Diabo no Espaço e no Tempo, (1958); A Mulher – Chave do Céu ou Porta do Inferno?, (1960); Livro de Bom Humor para Alívio de Tristes, (1961); Bancarrota, (1962).

O seu nome faz parte da Toponímia de: Amadora, Coimbra, Lisboa (Fregueisas de Campo Grande e São Domingos de Benfica, Edital de 08-08-1986, era a antiga Rua 4 do Novo Bairro das Fonsecas), Mafra, Mortágua, Seixal (Freguesias de Amora), Cascais (Freguesias de Cascais e São Domingos de Rana).

Fonte: “Dicionário Cronológico de Autores Portugueses”, (Vol. III, Publicações Europa América)

Fonte: “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” (Volume 11, Pág. 571)

Fonte: “Parlamentares e Ministros da 1ª República (1910-1926)”; (Coordenação de A. H. Oliveira Marques, Edições Afrontamento, Colecção Parlamento, Pág. 218).

Fonte: “Quem É Quem, Portugueses Célebres”, (Círculo de Leitores, Coordenação de Leonel de Oliveira, Edição de 2008, Pág.  227).

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