Os CTT, com este ou com outros nomes que foram tendo ao longo dos anos, tiveram, para o seu prestígio e engrandecimento, a contribuição de muitas pessoas. São essas pessoas que, dentro da medida do possível, pretendo dar a conhecer.

LOURENÇO António DE ARAÚJO, foi o 2º Sub-Inspector Geral dos Correios e Postas do Reino e exerceu o cargo de 1810 a 1827. Nasceu em Lisboa, Na Freguesia de Santa Engrácia, a 17 de Agosto de 1768, e faleceu, repentinamente, na mesma cidade, na Freguesia das Mercês, a 10 de Julho de 1827. Era filho de João Gomes de Araújo, Oficial-Maior da Secretaria de Estado dos Negócios de Marinha e Ultramar, e de D. Damiana Rosa.

Ingressou na vida pública em 1786, como oficial da Secretaria do pai, onde ascendeu a Oficial-Maior em 1817. Foi também Secretário da Real Junta do Tabaco e Comendador da Ordem de Cristo.

Pela portaria de 05 de Setembro de 1810 teve a nomeação de Sub-Inspector Geral dos Correios e Postas do Reino, situação que conservou até ao fim da vida, embora em Outubro de 1820 a Junho de 1823 estivesse afastado do lugar por não merecer a confiança política aos homens da revolução triunfante em 1820. A Administração dos Correios foi então entregue a uma comissão composta pelos Doutores José Joaquim Ferreira de Moura, António Gomes Loureiro e José Barreto Gomes, servindo o primeiro de Presidente. Não foi, porém, longa a vida desta comissão, que veio a dissolver-se em 17 de Março de 1821, por determinação das Cortes Gerais Extraordinárias. Barreto Gomes assumiu nessa altura a direcção dos Serviços, como Sub-Inspector interino, até que Lourenço de Araújo retomou o lugar, a 25 de Junho de 1823, como consequência do volte-face da situação política.

Como encarregado de um particular Real Serviço (Gabinete secreto de abertura de correspondeência), recebeu a gratificação anual de 480.000 réis, até 1820. Nesse ano o Governo saído da revolução acabou com esta espécie de censura; e, embora pouco depois criasse outra semelhante, ainda que mais encapotada, fez na ocasião grande alarde do facto, e até patenteou ao público a sala onde se fazia a censura, que era no próprio edifício do Correio-Geral, mas com entrada privativa pela Travessa das Mercês. O curioso é que José Barreto Gomes, que substituiu o Sub-Inspector após a vitória revolucionária, apressou-se a lançar ao Tejo todos os utensílios que serviam ao Gabinete Secreto, com a preocupação, ele mesmo o diz, de se não comprometer. Os utensílios atirados ao rio eram 2 ou 3 maçaricos de prata, 3 ou 4 facas, uns vidros para água, uma porção de massa de prata preparada, além de uma Imprensa que se escondeu num sótão.

O Fiel Joaquim José Maria tinha, em 1817, grande prática de abrir as cartas, e sabia o segredo de fazer a massa, sem que para isso fosse necessário procurar um ourives.

O Gabinete secreto voltou a funcionar em 1823, e Lourenço de Araújo de novo recebeu a gratificação de 480.000 réis, ayté que com a publicação da Carta Constitucional, em 1826, se interrompeu outra vez a censura. Nessa altura exitian no Correio 1700 a 2000 cartas suprimidas pelo Entrudo, que nada mais continham do que palhas próprias daquele tempo.

O período de administração deste Sub-Inspector não foi de todo improfícuo para o progresso dos Correios, apesar das perturbações de então. Ele mesmo enumera, num Relatório redigido em 1822, os trabalhos realizados:

Em 1810 estabeleceu as postas de comunicação com o nosso exército e de correspondência ordinária para o Porto, quase por entre tropas inimigas, apesar de poucos recursos de que dispunha o Correio pela diminuição das correspondências.

Achando-se os Correios das Secretarias do Estado em grande miséria pela falta de pagamento dos vencimentos, tomou a resolução de propor que esse pessoal ficasse a cargo do Cofre do Correio, para o que se restabeleceu regulamentação própria, aliviando-se assim o Erário de uma despesa que então subia a 22 contos por ano.

Estabeleceu um correio diário para o Quartel General de Lord Wellington, não obstante as enormes dificuldades que para isso encontrou, especialmente pela recusa dos alquiladores convidados a assegurar esse serviço.

A Estalagem dos Carvalhos, construída pela Super-Intendência de Estradas para servir a carreira da Mala-Posta Lisboa-Coimbra, estava abandonada, arruinada pelas tropas estrangeiras que por ali passaram, e não havia quem quisesse tomar conta dela, perdendo assim a Fazenda Real as avultadas quantias que despendera na construção. Anexou-a a Administração dos Correios e deu-a de renda, por 30.000 réis, com o encargo, para o rendeiro, de fazer reparações necessárias e de reservar os cómodos indispensáveis para a troca das Malas do Correio e alojamento dos condutores e estafetas.

Em 1814, nomeou-se novo Assistente para o Correio de Tomar, e elevou-se-lhe a pensão de 242.000 para 400.000 réis..

Às posta dos Alentejo, que eram pagas pelo Real Erário, mas estavam abandonadas, passaram, em 1813, a ser de conta do Cofre do Correio-Geral.

Em 1813 equilibraram-se as erceitas e despesas e pagaram-se as dívidas atrasadas, tais como a pensão vitalícia do Conde de Penafiel, ordenados do Director e mais funcionários do Correio, etc.

Considerando que a Administração dos Correios estava numa casa alugada, e que seria últil removê-la, propôs, em 1818, que, utilizando 40 contos quie existiam nessa ocasião, se constrísse uma casa própria, escolheu-se o Largo do Passeio Público para esse fim, com o que se aformoseava aquele Largo e se empregavam muitos operários reduzidos à indigência por falta de obras; porém a aplicação que o Estado teve necessidade de fazer dos fundos que existiam não permitiu que o projecto fosse avante.

Aviso de 02 de Janeiro de 1811: manda fazer o Correio para o Porto por mar, enquanto, por motivo da guerra, estiver impedida a comunicação por terra.

Regulamento da Repartição dos Seguros, de 13 de Dezembro de 1811, com 21 artigos, estabelece as formalidades a atenxder na expedição de valores seguros (registados).

Aviso de 10 de Outubro de 1812, determina que a correspondência trocada entre a Academia Real das Ciências e os Médicos do Reino, com o fim de promover a introdução da vacina no País, seja considerada como do Real Serviço imediato, e como tal não pague porte.

Plano para o estabelecimento da Posta Diária, de 30 de Junho de 1821. Que põe finalmente em prática o projecto do Dr. Mascarenhas Neto, de 1800, iniciando a distribuição domiciliária das correspondências, na Cidade Lisboa.

Decreto de 13 de Agosto de 1824; fixa novos vencimentos ao pessoal dos Correios, reparando a injustiça e desatenção com que o mesmo pessoal fora tratado pela Portaria de Junho de 1821.

Decreto de 14 de Agosto de 1824; estupula as pensões a que poderão ter direito as viúvas e filhas dos Correios.

Decreto de 20 de Maio de 1825; regula o número das cavalgaduras para serviço dos Correios das Secretarias de Estado.

Decreto de 21 de Maio de 1825; estabelece os casos em que os Correios das Secretarias de Estado poderão requerer pensões e em que estas poderão ser concedidas.

Aviso de 15 de Abril de 1825; torna público que se procederá na conformidade das leis contra o Capitão, tripulação e passageiros do barco a vaport “Restaurador Lusitano”, todas as vezes que se provar que a correspondência entre a Capital e o Porto, que se transportarem pelo mesmo barco não são entregues nas Administrações do Correio.

Duas publicações de grande utilidade se editaram no tempo deste Sub-Inspector:

O Regulamento Geral para o Correio e suas dependências, (Lisboa, Oficina de António Rodrigues Galhardo, 1815), reunindo diversos diplomas datados de 1805 a 1811.

Tabela dos dias de partida e chegada dos Correios, acompanhada de um mapa que demonstra o giro do Correio e sua mútua correspondência, (Lisboa, Impressão Régia, 1818); curiosa brochura de 8 páginas e um  mapa de Porttal desdobrável.

Eram, então, 125 as terras do País que tinham correio, uma, duas ou três vezes por semana. De Lisboa partia o Correio às Segundas, Quartas e Sábados; às 6 e meia da tarde; e ao Porto, por exemplo, chegava respectivamente às Quintas, Sábados e Terças.

O estafeta das encomendas e dinheiros seguros, entre Lisboa, Coimbra, Porto, e localidades intermédias, partia da Capital às Terças, de tarde.

Os assaltos aos estafetas e os roubos das malas multiplicavam-se por forma assustadora, apesar das providências aflitivamente reclamadas pelo Sub-Inspector. Alguns exemplos, entre muitos:

Na noite de 23 para 24 de Outubro de 1810 um bando de salteadores ataca e fere o estafeta de Portalegre a uma légua da Cidade; mata-lhe um dos muares e rouba-lhe o outor juntamente com as malas do Correio e tudo o mais que o pobre homem levava consigo.

Em 1812 uma quadrilha de 35 bandoleiros, operando nas proximidades da Moita, sai ao caminho a uma caravana de viajantes que, por precaução, seguia um grupo, conjuntamente com o condutor do Correio de Setúbal. Este teve um macho inutilizado, mas, mercê da energia de alguns viajantes mais animosos e em especial de um Padre, cujos tiros do bacamarte eram certeiros, o incidente não teve consequências mais desastrosas.

Destinada a pesar as correspondências e a determinar ao mesmo tempo a taxa, especialmente para as cartas do Brasil, inventou Lourenço António de Araújo uma balança, de que existem em Portugal 3 exemplares, no Museu dos CTT e uma cópia no Museu Postal de Berlim (Alemanha).

Por seu falecimento, e em atenção aos serviços que prestou, foi arbitrada uma pensão à viúva, D. Ana Benedita de Azevedo Coutinho de Araújo.

Fonte: “Dos Correios-Mores do Reino aos Administradores Gerais dos Correios e Telégrafos”, (De Godofredo Ferreira, 2ª Edição, revista e aumentada, Lisboa, 1963)

Fonte: “Velhos Papéis do Correio”, (de Godofredo Ferreira, Editado pelos CTT, Edição de 1949)

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