Os CTT, com este ou com outros nomes que foram tendo ao longo dos anos, tiveram, para o seu prestígio e engrandecimento, a contribuição de muitas pessoas. São essas pessoas que, dentro da medida do possível, pretendo dar a conhecer.

cavalo-dos-ctt-antigoEDUARDO LESSA, foi o 6º Sub-Inspector e 1º Director-Geral dos Correios, exerceu o cargo de 1853 a 1877. Nasceu no Porto, em 1811, e faleceu em Lisboa, a 15 de Dezembro de 1890. Era filho de Duarte Lessa, um dos primeiros inscritos na Associação Patriótica – Synhedrio, que preparou e dirigiu a revolução de 1820, no Porto, e, mais tarde, Cônsul de Portugal em Liverpool. Foi casado com sua prima, D. Teresa Emília Pereira da Silva Lessa, e pai do falecido 1º Oficial dos Correios Artur Alberto Lessa, que chefiou os Serviços Postais da Cidade de Lisboa e se aposentou em 1910.

Eduardo Lessa, que frequentava o 4º ano de Medicina na Universidade de Edimburgo à data da morte do pai, interrompeu o curso por falta de meios; e, voltando a Portugal, ingressou na vida burocrática, por decreto de 16 de Julho de 1834, como 1º Oficial da Contadoria do Tribunal do Tesouro Público. Em Setembro de 1844 foi promovido a Chefe de Secção da Secretaria de Estado dos Negócios da Fazenda.

Seis anos mais tarde, em 1850, sendo então Chefe da 2ª Repartição da Direcção-Geral da Tesouraria do Ministério da Fazenda, teve carta do título do Conselho pelos serviços que prestou como Vogal da Comissão encarregada de apresentar a conta relativa ao subsídio da Divisão Auxiliar Portuguesa, que militou em Espanha nos anos de 1835 a 1837, e pelo zelo que empregou para se conluir satisfatoriamente a liquidação da mesma conta.

Como ficou dito no capítulo anterior, Eduardo Lessa, pelo Decreto de 15 de Outubro de 1851, entrou para a Comissão encarregada de estudar e propor a reforma dos Correios, datando dessa ocasião, ao que parece, a sua aproximação dos Serviços Postais.

Nomeado Sub-Inspector Geral dos Correios e Postas do Reino em 13 de Outubro de 1853, foi já sob a sua direcção que entrou em pleno vigor a reorganização de Outubro de 1852 e os subsequentes regulamentos.

Em princípios de 1855 restabeleceu a carreira da mala posta, que um elevado deficit de administração obrigara a suspender havia cerca de 50 anos. De início, a viagem não ia além de Coimbra; mas, à medida que se foi concluindo a estrada nova para norte desta cidade, alargou-se também o trajecto, até ficar finalmente assegurada, no começo de 1858, a ligação regular entre Lisboa e o Porto, para transporte de malas de correio e condução de passageiros.

Ao extinguir-se este serviço, em 1864, o pessoal compunha-se dum Director, 2 Oficiais subalternos, 4 Veterinários, 23 Feitores, 15 Cocheiros, com um Chefe que servia nos navios, 4 Sotas, 80 Moços de cavalariça, Carpinteiros e Serralheiros. O Serviço Postal era executado por 8 Condutores de malas.

O Correio partia então de Lisboa nos vapores da Companhia Tejo-Sado, e ia rio acima até ao Carregado, onde estavam instaladas as cocheiras, cavalariças, oficinas e habitação do pessoal da mala-posta.

O percurso até ao Porto, através de 23 estações, fazia-se em 34 horas, incluindo o tempo gasto nas quatro refeições que os viajantes tomavam pelo caminho – ceia nas Caldas da Rainha, almoço em Leiria, jantar em Coimbra e cei em Oliveira de Azeméis. A chegada ao Porto era às 6 da manhã.

O material compunha-se de 18 carruagens do tipo inglês, e o número de animais empregados subia a próximo de 300.

Com as malas no tejadilho cobertas com um encerado, cada carruagem transportava 8 passageiros, além do cocheiro e do condutor, e havia ainda lugar junto do Postilhão,para qualquer empregado da mala-posta ou do Correio que houvesse necessidade de seguir viagem.

Os preços da passagem para viajantes era de 45 réis por quilómetro em 1ª classe, e 30 réis, em 2ª classe; e para as bagagens 10 réis por quilómetro, não podendo cada passageiro levar mais de 30 quilos.

Sob a gerência de Eduardo Lessa, Portugal assinou as seguintes convenções postais: com a Inglaterra, em 1859; com Espanha, em 1862; com Itália, em 1863; com a Prússia, em 1864; com a França, em 1865; com a Inglaterra, em 1866; com a Espanha, em 1867; com a Bélgica, em 1868; com a Itália, em 1870; com a Alemanha, em 1872; com a Espanha, em 1873. Um tal número de acordos, no espaço de quinze anos, é índice seguro do desenvolvimento que os Correios tomaram neste período de administração.

Quando, pelo Decreto de 30 de Dezembro de 1864, se reorganizaram os Serviços e a Sub-Inspecção se transformou em Direcção-Geral dos Correios, o Conselheiro Eduardo Lessa teve a nomeação de Director-Geral.

Ao contrário do que secede hoje, em que qualquer funcionário, ao tomar posse de um cargo, se julga obrigado a maldizer o trabalho do antecessor, o Dr. Guilhermino de Barros, no seu apreciado relatório de 1877-1878, ao referir.se à obra do Director que o antecedeu, fá-lo por estas nobilíssimas palavras:

«Não podia deixar na sombra o Conselheiro Eduardo Lessa, que ocupou a lat posição de Chefe dos Correios e Postas do Reino.

Sucedendo a Sousa Pinto de Magalhães, foi o Conselheiro Lessa que executou a rfeforma de 1852, estabeleceu a mala-posta entre Lisboa e Porto, organizou o serviço de Correios, em relação aos caminhos-de-ferro e às primeiras Ambulâncias Postais, realizou Convenções com muitos dos países masi importantes da Europa, estabeleceu e desenvolveu a transmissão de pequenas somas de dinheiro por via de títulos ao portador, chamados vales, e representou o País no Congresso de Berne com dignidade. <Ainda no tempo da sua direcção se modificaram as taxas internas e externas diversas vezes, escreveram os regulamentos variados sobre diversos assuntos, se alargou a distribuição domiciliária a muitos pontos do Páis e regularizou a mesma adequadamente nos grandes centros de Lisboa e Porto, etc.

«A história imparcial e verdadeira não podia esquecer tais actos, e por isso grava, com o seu buril que a verdade dirige,os nomes dos beneméritos que hão-de ficar na memória da posteridade, seja gradioso ou modesto o serviço que desempenharam: um destes é o Conselheiro Eduardo Lessa».

Aposentou-se em 1877, em consequência de factos ocorridos na sua Direcção-Geral, que profundamente o abalaram.

António Macedo Mengo, praticante dos Correios de Lisboa, apenas com dois anos de serviço, publicou em 1869 um folheto intitulado O Serviço do Correio em Portugal, em que atacava o Conselheiro Eduardo Lessa no desempenho das funções de Director-Geral.

Estas acusações repetiram-se mais tarde na imprensa diária, com fúria de energúmeno, que a ninguém poupava, apontando faltas graves a diversos empregados e responsabilizando delas os superiores. De todo este barulho resultou a Portaria de 06 de Abril de 1872, que ordenava um inquérito ao serviço dos Correios.

Macedo Mengo, entusiasmado com os resultados da campanha, publicou, em princípios de 1873, outro folheto destinado a atear o incêndio com novas acusações, ao  mesmo tempo que provocava um conflito com um 1º Oficial, por motivos de serviço, ameaçando-o de lhe dar duas bengaladas. Este último facto, aliado, ao que parece, à falta de verdade de algumas afirmações, determinaram a sua demissão, em 14 de Agosto do mesmo ano.

Embora demitido, não desarmou o endiabrado praticante com o precalço sofrido e continuou a agitar a questão, que da imprensa passou ao Parlamento, onde serviu à maravilha como exploração política, de que se aproveitou, entre outros, o Deputado Barros e Cunha. Quando este político se encarregou da pasta das Obras Públicas, em 1877, no Ministério presidido pelo Marquês de Ávila, Mengo aproveitou o ensejo e apresentou-se-lhe a requerer a rfeadmissão no lugar de que fora demitido quantro anos antes; o Ministro, porém, esquecido da sua atitude como Deputado, parece não acolheu o pretendente com o entusiasmo que ele esperava, e este, não hesitando diante de nova diatribe, consagrou ao Ministro um folheto incorrecto e atrevido. Apesar disso (ou talvez por isso mesmo), em Decreto de 19 de Setembro de 1877 foi o ex-praticante reintegrado nos Correios.

Como era natural, o Conselheiro Eduardo Lessa, magoado com o que julgava uma descosideração, pediu a reforma; e, entregando os serviços ao Chefe da Repartição Central, Tito de Carvalho, retirou-se. Ao mesmo tempo, Macedo Mengo, embriagado com o triunfo alcançado, envia ao Ministro uma exposição ultra-insolente, emq ue declara não poder retomar o lugar enquanto o Conselheiro Lessa se conservar à frente da Direcção-Geral. Tinha esticado de mais a paciência do Ministro, que, como resposta, o torna a demitir por Decreto de 15 de Outubro.

O Conselheiro Eduardo Lessa, não obstante, mantém o pedido de aposentação, que lhe é concedido em 23 de Outubro e publicado no Diário do Governo de 31, juntamente com a demissão do insubordinado praticante.

Era Comendador da Ordem de Cristo; Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa; Comendador da Ordem de Isabel, a Católica, de Espanha; de Leopoldo, da Bélgica; de S. Maurício e S. Lázaro, de Itália, de Francisco José, da Áustria.

Fonte: “Dos Correios-Mores do Reino aos Administradores Gerais dos Correios e Telégrafos”, (De Godofredo Ferreira, 2ª Edição, revista e aumentada, Lisboa, 1963)

Fonte: “Velhos Papéis do Correio”, (de Godofredo Ferreira, Editado pelos CTT, Edição de 1949)

Anúncios

No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: