Passa hoje mais um aniversário sobre o nascimento do Professor Mariano Feio. Aqui fica uma pequena homenagem deste Geógrafo invulgar.

 

Mariano FeioMARIANO Joaquim de Oliveira FEIO, Professor e Geógrafo, nasceu em Beja, a 03-06-1914, e faleceu em Ferreira do Alentejo, a 16-03-2001. Era filho de Pedro Sequeira Feio e de Maria Margarida da Fonseca Acciaioli de Avillez Oliveira. Por morte prematura da sua mãe que faleceu vitimada pela pneumónica a 3 de Maio de 1923 e depois do seu pai ainda no mesmo ano, o seu avô materno, Médico de profissão, Joaquim Alberto de Carvalho e Oliveira, torna-se seu tutor aos 9 anos de idade. A preocupação em dar uma boa educação ao neto leva-o a interná-lo no Colégio Portugal, no Dafundo (Lisboa), de onde só sai com 16 anos de idade.

Aos 18 anos ingressa no Instituto Superior Técnico de Lisboa e Licencia-se em Engenharia Civil no ano de 1936. A 01 de Agosto desse mesmo ano ruma para a Alemanha mais concretamente para Berlim para participar nos Jogos Olímpicos, representando Portugal na prova de tiro com pistola de precisão. Contudo, não chega às finais e não ganha qualquer medalha.

A sua ida à Alemanha não tem apenas por objectivo a sua participação nas XI Olimpíadas, interessa-lhe aprofundar conhecimentos nas áreas da Geologia, Paleontologia e Geomorfologia nas universidades de Berlim e de Munique, principalmente os ministrados pelos professores Broili, Machatchek, Kraus e Beurlen e doutorar-se nesses ramos científicos. Este objectivo não será plenamente atingido porque em 1939 eclode a Segunda Grande Guerra, no entanto manter-se-á ainda na Alemanha até 1942. Viveu durante esses anos no seio de uma família alemã que tinha uma casa de hóspedes e onde, de 15 em 15 dias se encontrava com Jorge Dias e Eduardo Correia que também tinham vindo para Berlim para aperfeiçoar a sua formação. Com estes estabelece fortes laços de amizade que estreitou com o passar dos anos e manteve até ao fim da sua vida.

Conheceu de perto os devaneios de Hitler, as manifestações de poder durante os Jogos Olímpicos e a recusa do führer em cumprimentar Jesse Owens, um negro norte-americano que vence em 1936 quatro títulos no atletismo. Conhece de perto as imposições e graduais proibições que o regime nazi vai fazendo ao povo judaico e chegou a assistir à imposição da marca de inferioridade nos judeus. Enquanto esteve na Alemanha conheceu alguns judeus com os quais até fez amizade e teria sido graças às longas conversas que mantinha com estes que conseguiu aperfeiçoar o seu conhecimento e pronúncia da língua alemã.

A instabilidade política vivida na Europa desencadeada pela Alemanha e pelo aparecimento do III Reich determinaram, certamente, o seu retorno a Portugal por volta de 1942. Chega assim a Portugal sem Doutoramento mas determinado a prosseguir e pôr em prática os ensinamentos que lhe tinham sido ministrados em Berlin e Munique na área da Geomorfologia, empreendendo estudos dessa natureza na serra do Algarve. Um violento acidente de viação, porém, impede-o de prosseguir este objetivo a médio prazo uma vez que fratura a coluna vertebral.

A sua grande força de vontade e determinação férrea, permitem-lhe vencer, no entanto, mais este obstáculo e entre 1944 e 1951 exerce funções de Assistente na Secção de Geografia da Universidade de Lisboa (Faculdade de Letras) e participa em vários trabalhos de investigação científica no âmbito do Centro de Estudos Geográficos sôb a direção do Professor Orlando Ribeiro.

Admira o trabalho de Orlando Ribeiro e participa activamente com este na organização do primeiro Congresso Internacional de Geografia do pós-guerra em Lisboa no ano de 1949 . Por esta ocasião publicaram-se vários estudos de difusão internacional, 4 Volumes de Actas e 6 livros-guias das excursões, escritos em francês. Coube a Mariano Feio organizar a visita de estudo e o Livro- Guia ao Sul do País onde traça os principais aspectos da Geografia Regional do Baixo Alentejo e do Algarve.

Retomou e concluiu os seus trabalhos de pesquisa sobre a evolução do relevo do Baixo Alentejo e Algarve e apresentou, por fim, a sua tese de doutoramento, na área da Geografia, à Universidade de Lisboa em 1952, obtendo a classificação final de 19 valores.

Nos dois anos que se seguiram exerceu a sua actividade docente na Universidade Federal de Paraíba (Brasil) onde encetou trabalhos de investigação geomorfológica na região das “secas” do nordeste do Brasil e acerca da “açudagem”,estudos que veio a publicar em revistas brasileiras nomeadamente na revista brasileira de Geografia no ano de 1954.

Regressa a Portugal ainda em 1954 e Orlando Ribeiro convida-o para seu Assistente. Em 1955, o eminente Geógrafo português é incumbido da missão de Geografia na Índia e para o acompanhar escolhe Raquel Soeiro de Brito e Mariano Feio. Permanecem em Goa de Outubro até ao mês de Maio de 1956. A primeira difusão dos resultados fez-se através do número especial da revista Garcia de Orta (1956), dedicado à Índia Portuguesa e integrado nas Comemorações do IV Centenário da Introdução da Imprensa em Goa. Raquel Soeiro de Brito publicou em 1966 “Goa e as praças do Norte”, e Mariano Feio publicou a síntese dos seus estudos geomorfológicos no número especial de Garcia da Orta e, em 1979, um livro sobre as castas Hindus de Goa, obra onde faz uma análise etnológica da complexa e original cultura da região.

Para além desta missão em territórios ultramarinos outras se seguiram e entre 1958-1961 e 1966, Mariano Feio chefia a missão de estudos de Geografia Física de Angola. Durante estas missões estuda a génese e a evolução do relevo de todo o sudoeste de Angola, entre o Litoral e o rio Cubango.Os resultados desses estudos foram publicados na revista Garcia da Orta e na Finisterra.

Detentor desde 1954 de uma extensa propriedade, a Herdade do outeiro, sita na Freguesia de Canhestros a 18 Km de Ferreira do Alentejo, com 1200 há, Mariano Feio, insigne Investigador e Professor Catedrático, estreia-se como Agricultor e com o passar dos anos, tornar-se-ia um conhecedor dos problemas agrícolas que afligem o seu Alentejo. Os estudos e problemas relacionados com a Geografia Agrária interessavam-no cada vez mais. No sentido de aprofundar ainda mais estes últimos conhecimentos e no sentido de melhor gerir a sua herdade faz viagens a Marrocos, Israel, Itália, África do Sul, Califórnia e Espanha ficando assim na posse de um conhecimento direto das realidades agrícolas locais e internacionais e podendo ainda estabelecer comparações entre elas.

Aplicou todos os seus conhecimentos técnicos na gestão da propriedade e tentou arranjar soluções para os problemas agrários sentidos no Alentejo recorrendo á introdução de novas técnicas agrícolas. Para além de controlar através de contabilidade analítica toda a sua actividade, manda elaborar, no sentido de ficar a conhecer profundamente os solos da sua propriedade, uma carta pedológica detalhada da herdade e manda instalar um pluviometro e, posteriormente, uma estação metereológica completa para melhor controlar e conhecer as influências climatéricas sobre a a gricultura.

Ganhou rapidamente o respeito dos Agricultores da região mesmo até dos que, inicialmente se mostraram mais cépticos e a sua herdade depressa se transformou numa herdade modelo, local de passagem obrigatória para estudantes das universidades de Lisboa e Coimbra da área de Geografia, do Instituto Superior Técnico de Agronomia de Lisboa e ainda para quase todos os Geógrafos estrangeiros ligados aos aspectos de Geografia Agrária.

O prestígio e os conhecimentos que detinha sobre a Agricultura no Alentejo fizeram com que fosse indicado por inúmeras vezes para ocupar o cargo de Director da Federação dos Grémios da Lavoura do Baixo Alentejo, do Grémio da Lavoura de Beja e da Associação Nacional dos Produtores de Cereais (ANPOC). Representou ainda os agricultores nacionais em muitas entidades como o sejam o Conselho Consultivo da Direcção- Geral dos Serviços Hidráulicos, a Comissão Nacional da FAO, a Comissão Nacional de Produtividade e a Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), para onde redigiu em 1973 um relatório básico acerca das necessidades de investigação no sector agrário.

Em 1974 eclode a revoilução dos cravos e Mariano Feio vê-se impedido de prosseguir a sua actividade agrícola uma vez que o impeto revolucionário resulta na ocupação de metade da herdade do Outeiro. Refugia-se em Évora onde tem residência na Avenida Dr. Barahona nº 1. Só a partir de 1980 retoma as suas funções de agricultor, actividade que vai ocupar até final da sua vida.

Entretanto e logo em 1975, Ário de Azevedo, então Reitor da Universidade de Évora, dirige-lhe um convite no sentido de integrar o corpo docente da mesma Universidade. Mariano Feio aceita e a partir de 26 de Junho desse mesmo ano reinicia a sua carreira universitária, assumindo o cargo de Professor Catedrático da Universidade de Évora. Funções que desempenha até à sua aposentação em 1984. Durante esse período de tempo teve a seu cargo a regência das disciplinas de Geografia Física (Mesologia I e II), Geografia Humana, Geografia Económica, Etologia, Antropologia Cultural e Quotidianos Portugueses.

Leccionou e colaborou em vários seminários sobre temas agrícolas, entre os, entre os quais, o de “Clima e Agricultura”, da licenciatura em Geografia e Planeamento Regional, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, nos anos de 1985 e 1986. Colaborou ainda no Seminário organizado pela Universidade de Évora “Portugal, anos 80” desde 1981.

Foi Presidente da Comissão Orientadora do Ensino Superior Agrário, no tempo do Secretário de Estado Professor Arantes e Oliveira.

Sem descendentes, herdeiro do Visconde e Conde da Boa Vista, seu bisavô pelo lado paterno, Mariano Feio era pessoa com grandes recursos financeiros, contudo nunca foi materialista nem nunca usufruiu ou sequer utilizou o título nobiliárquico que era seu por direito.

A provar esta humildade, esta abnegação e a procura do bem estar comum está o protocolo que assina a 21 de Novembro de 1991 com a Câmara de Beja pelo qual lega as jóias inerentes ao título aos cidadãos de Beja.

E, a 24 de Julho de 2000, já muito doente e enfraquecido fisicamente, manda lavrar o seu testamento legando a sua herdade, alfaias, mobiliário e biblioteca à Escola Superior Agrária para que possa prosseguir os seus estudos e formar técnicos agrícolas capazes, à Associação do Bem estar social dos reformados e idosos de Canhestros deixa uma parcela de terreno com uma área de 1 ha e 5600 m2, a Hermelinda Teixeira lega o usufruto, por um período de 10 anos, sobre a casa da herdade do Monte do Outeiro; à Santa Casa da Misericórdia de Ferreira um prédio urbano destinado a habitação, sito na freguesia de Bordeira, Concelho de Aljezur, bem como dois terços dos depósitos e títulos que possuía, ficando um terço desse montante para a Associação do Bem Estar Social dos reformados e idosos de Canhestros. As jóias que possuía lega-as a sua tia Maria José Avillez Oliveira Pignatelli e a suas filhas para serem repartidas em partes iguais.

Publicou, entre outras, as seguintes obras: A Reconversão da Agricultura e a Problemática do Eucalipto, (1989); Clima e Agricultura, (1991); A Evolução da Agricultura do Alentejo Meridional, (1998).

O seu nome faz parte da Toponímia de: Ferreira do Alentejo.

Fonte: “Câmara Municipal de Ferreira do Alentejo – Museu Municipal”

Fonte: “A Obra Geográfica de Mariano Feio”, (Por Suzanne Daveau, Investigadora do Centro de Estudos Geográficos, da Universidade de Lisboa)

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